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Integridade no Esporte

Manipulação esportiva: quando o risco entra em campo antes do jogo começar

Marina Drummond Machado
Marina Drummond Machado
A manipulação cresce no silêncio e é interrompida quando alguém tem segurança para falar.

A manipulação se instala de forma quase imperceptível dentro das estruturas do esporte. Não começa com grandes escândalos, mas com contatos informais, propostas veladas e situações que colocam profissionais diante de decisões que podem comprometer toda a competição.

O ponto mais sensível é que esses movimentos raramente são visíveis para quem está de fora. Eles surgem nos bastidores, em conversas privadas, em abordagens direcionadas e, principalmente, em contextos onde alguém acredita que não será descoberto. E é justamente aí que a integridade começa a ser testada.

Em determinadas vezes, contudo, há alguém que percebe. Um atleta desconfiado, um funcionário atento, um membro da equipe que identifica algo fora do padrão. Mas perceber não é o suficiente, é preciso ter segurança para agir.

Sem um canal de denúncias confiável, o que prevalece é o silêncio. E o silêncio, nesse contexto, não é neutralidade, é espaço para que o problema avance.

A manipulação de resultados não é apenas uma infração esportiva — é crime. A Lei nº 14.597/2023 (Lei Geral do Esporte) prevê pena de reclusão de 2 a 6 anos, além de multa, para quem solicitar, oferecer ou aceitar vantagem com o objetivo de interferir em competições.

No âmbito esportivo, as sanções são igualmente rigorosas. O Código Disciplinar da FIFA estabelece suspensão mínima de 5 anos, podendo chegar ao banimento definitivo. Já o CBJD prevê multas, suspensão e até eliminação do esporte, além de punições aos clubes, como perda de pontos ou exclusão de competições.

Ressalta-se que a manipulação esportiva nem sempre está ligada ao resultado final da partida. Condutas como provocar intencionalmente um cartão amarelo, simular uma expulsão ou influenciar lances específicos, como escanteios, também configuram fraude quando há interesse externo, especialmente relacionado a apostas. Em muitos casos, tudo começa com uma abordagem suspeita ou uma proposta indireta.

Empresas e organizações esportivas que não oferecem um ambiente seguro para denúncias acabam, ainda que involuntariamente, favorecendo a permanência desses riscos. Por outro lado, quando existe um canal acessível e protegido, a lógica muda. A denúncia deixa de ser um risco pessoal e passa a ser uma ferramenta institucional. A informação chega, os sinais são tratados e a capacidade de resposta se fortalece.

Mais que reagir a crises, trata-se de impedir que elas se formem. No esporte, a integridade não depende apenas de regras rígidas ou punições severas, mas de sistemas que funcionem e de pessoas que saibam que não estão sozinhas ao decidir fazer o certo.

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