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Integridade no Esporte

Integridade no futebol: quando a exceção vira regra, a conveniência vira cultura

Marina Drummond Machado
Marina Drummond Machado
Quando o desvio se torna tolerado, o problema deixa de ser pontual e passa a ser estrutural.

O futebol é, por natureza, imprevisível. Mas nem tudo deveria estar sujeito à sorte. No momento em que um time entra em campo, não é só sua performance que está em jogo, é a credibilidade de uma instituição que representa valores, histórias e, principalmente, pessoas.

Governança não pode ser confundida com burocracia ou com manuais rebuscados e arquivados em gavetas. Ela é o conjunto de decisões (e omissões) que definem o tipo de clube, federação ou entidade que se quer construir.

Tomemos como exemplo um clube que afasta um atleta promissor, após declarações públicas racistas, mesmo diante de protestos de parte da torcida. Obviamente, não se trata de uma decisão fácil, nem popular, mas estratégica: a integridade institucional sobressaindo ao indivíduo. Essa postura envia uma única mensagem: valores não são negociáveis.

Governança ética é, muitas vezes, solitária e impopular. Mas também é a única capaz de criar estruturas sustentáveis. Não é sobre parecer correto quando tudo vai bem; é sobre manter coerência quando as tentações são grandes e as pressões, maiores ainda. Um clube que normaliza desvios em nome da performance está apenas adiando a sua própria crise.

No fim, a pergunta não é se “governança funciona?”, mas se estamos dispostos a praticá-la. Porque o que realmente ameaça a gestão do esporte não é a ausência de controle, mas a convivência com o desvio. E isso, sim, não é imprevisível. É previsivelmente perigoso.

E se o problema não for a ausência de regras, mas o excesso de exceções? Governança que cede à conveniência, sem uma ética operacional, não se sustenta por muito tempo. Padronizar a exceção é, portanto, institucionalizar o risco. Proteja-se.

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